Leitura 2.0

A gente vê muita coisa sobre os leitores de e-books, vide o bochicho com o lançamento do Kindle e seus primos – o iPad como o último e mais glamuroso deles (muito embora seja mais que um leitor, naturalmente). Pouco se fala sobre o que é possível de se fazer com um  e-book para que explore as peculiaridades do meio digital e se transforme em uma obra diferente de seu irmão impresso – o que vi até o momento são textos digitalizados, praticamente lineares, com ilustrações estáticas.

Esses dias estava lendo, em papel,  Isak Dinesen (Karen Blixen), A Fazenda Africana. Histórias de uma européia – do andar de cima, como diria o Elio Gaspari, da Folha de São Paulo – que se encontra como colonizadora no Quênia no início do século XX. É talvez a terceira ou quarta vez que leio o livro nuns 15, 20 anos. Só que dessa, a cada referência dela a um ponto geográfico (o Monte Ngong, a reserva Kikuio, Nairóbi) ou de uma pessoa interessante, eu ia fuçar no Google Maps: onde é isso? qual a proximidade com a fazenda? Eles saíram num safari daqui até ali: qual a rota? Por onde passaram? E outras: quem foi fulano? E sicrano? Que outras visões existem disso ou dele? Isso é uma leitura 2.0, e não é nada de mais, não depende de nenhum e-book reader.

A leitura em papel, adicionada a essas pitadas eletrônicas via um telefone E71 rodando Symbian, com Google Maps móvel, um navegador Ópera  Mobile (delícia, rapidinho), foi interessantíssima. Nada que não se pudesse fazer com um micro convencional; porém, na cama, lendo o livro com o apoio do dispositivo móvel, essa foi uma experiência muito bacana. Integrou duas gerações tecnológicas e duas diferentes maneiras de acessar informação, em contextos distintos, complementares uma à outra.

Mensagem fundamental desse post: não caia na balela de que é necessário um leitor eletrônico sofisticado, coisa e tal, para dar um upgrade na sua relação com a literatura. Se os livros não mudarem, NADA MUDA pela simples inserção do texto em meio eletrônico.
Ao invés disso, mude você: pegue seu livrinho e seu iPhone, BlackBerry, E71 ou o que o valha; sente na sua poltrona, deite na cama, como preferir; e explore a combinação poderosa da velha com a nova tecnologia. Vai ser divertido, é menos um trambolho na sua vida e, até os dias de hoje, pelo menos (2010) funciona MUITO melhor do que os e-book readers.
Bom proveito!

Referências:
Para comprar Karen Blixen (não ganho nada com isso, ok? ;-)  )
Livraria Cultura – alto nível, coisas em português e em outras línguas.
Estante Virtual – meta-busca em sebos, sensacional, sempre funcionou bem para mim. Sempre verifique as qualificações do vendedor.

Sobre o Nokia E71, há um post aqui no EP em que falo dele. Aliás, mais de um.

Um post muito simpático da Cátia Kitahara, com texto e fotos, falando da Dona Blixen.

E o Google, sempre ele. As imagens da Baronesa são preciosas.

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2 respostas para Leitura 2.0

  1. Oi Marcos,

    Obrigada pela menção. Gostei do seu post. Isso que você falou é bem interessante, ainda não faço quando leio, porque geralmente estou deitada na cama e o computador já está desligado. Não tenho note (tenho um certo medo do que pode me acontecer se tiver um :)). Mas várias vezes durante a leitura sinto necessidade de dar uma googlada ou buscar referências no mesmo livro. Outro dia estava lendo um livro e cismei que o autor já tinha dito a mesma coisa em outra parte do livro, é uma pesquisa, portanto achei que era um erro de montagem ou revisão, não era erro de impressão. Fiquei com uma vontade louca de dar um search no livro :). Acho que isso o Ipad faz e não sei dizer sobre outros leitores, mas a forma como a gente lê mudou e não sei se as ferramentas disponíveis conseguem suprir essa mudança. Eu resisto muito a idéia dos livros não serem mais impressos, principalmente por causa da relação com o tato, mas acho que estas ferramentas têm um potencial enorme de enriquecer a leitura e compensar o prazer proporcionado pelo papel.

    • Marcos Benassi disse:

      Oi Cátia,
      É verdade, esses leitores tem muito potencial. Eu implico é com a badalação vazia em torno do dispositivo, só pela masturbação tecnológica.
      Mas tenho certeza de que terá que ser popularizado um “novo livro”, que se aproprie da peculiaridade do meio e do dispositivo: poder “dar um search”, me parece, ainda não justifica o dispositivo e o frenesi em torno dele.
      E, digo-te, não leve o notebook pra cama: vou com o telefone porque ele é meu “despertafone”, e acabo conjugando-o com os livros. Mas não sei se é prática muito saudável, não… 😉
      Um abraço,
      Marcos

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