Mudança comportamental na docência online

[por Renata Kurtz]

Não sei se muitas pessoas têm o hábito de reler livros ou trechos de livros, mas confesso que eu tenho. Sinto como se o livro me chamasse, como se pudesse atender a uma necessidade de repensar ou redescobrir algo com um outro olhar.

Pois bem, hoje reli no bom “O Aluno virtual”, de Palloff e Pratt, a seguinte frase: “A aprendizagem online é uma experiência transformadora”! A frase poderia passar sem qualquer ênfase, não fossem os professores que tenho acompanhado e suas descobertas sobre a docência online. Estes autores defendem que a prática do questionamento e da colaboração com os demais em uma turma transformam alunos e professores em sujeitos reflexivos, o que só acontece quando mudanças permitem esse novo estilo de aprendizagem.

O que pode parecer um pouco confuso em um primeiro momento caiu como uma luva ao que tenho percebido com os professores que nunca atuaram como docentes onlines: as vivências em oficinas práticas em que os professores  atuam primeiro como alunos, depois como como professores, literalmente, e permitem que sintam na pele cada desafio, que exerçam ações anteriormente trabalhadas discursivamente, para compreendê-las – ou apreendê-las – e por esse grau de entendimento, enfim se modificar.

O que muda nesse comportamento?

Como não é uma mudança descolada dos valores e objetivos para seu trabalho, mudam inicialmente a sua compreensão e a sua visão do aluno, da aprendizagem, da relação com o aluno e da sua atuação como docente online. Coerentemente com essas mudanças, transforma-se então o comportamento propriamente dito: percebo manifestações mais disponíveis aos outros, a escuta mais atenta, a busca da valorização dos outros em suas falas.

Em nome dessa busca comportamental, não pude atender a um pedido de uma instituição: “Você pode condensar as semanas de seu curso em um intensivão presencial de 5 dias?”

Respondi: “Infelizmente não,  os professores não teriam tempo para o amadurecimento que a mudança comportamental requer.”

Arrisquei-me a  ser mal interpretada, mesmo expondo as minhas razões. A instituição acreditou em mim e pudemos ouvir diversos feedbacks positivos ao final, de que destaquei um a fim de trazer para cá: “Eu não conhecia a Educação, me tornei um professor melhor até em sala de aula presencial”.

Pallof e Pratt estão cobertos de razão: “A aprendizagem online é uma experiência transformadora” para alunos e professores!

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Vanguarda e imersão

[por Marcos Benassi]
Já se discutiu aqui sobre usos de ponta da tecnologia, e usos da tecnologia de ponta. Mas falando em experiências imersivas / de aumento da realidade e de alta tecnologia, dei de cara com uma orelha wi-fi implantada no braço de um body moder.

Isso é que é vanguarda, o resto é pinto – como se dizia nos antigamentes. É muito mais do que vanguarda, na verdade: é um experimentalismo extremo, de vastas implicações simbólicas. De práticas, além do estranhamento, creio que ainda não há muitas. Porém, a idéia de um sistema auditivo artificial, que reponha plenamente a funcionalidade de quem não a tem, é um sonho não tão longínquo: sintonizá-lo com outros cyber-ouvidores é somente um pequeno passo adiante nesse mesmo caminho.

E nós com isso? O e-book cuja ilustração é uma simulação, não é um pouco dessa trans-tecnologia? Aulas dadas em classes distintas, conectadas via alguma rede e que se enxergam em tempo real, e compartilham dos respectivos professores e colegas a distância? Ou a “aula móvel” que comentei em meu post sobre o meu maravilhamento tecnológico. Ou, de forma muito, muito mais contida, as aulas que meus alunos presenciais em viagem gravaram, para assistir posteriormente – a descontinuidade temporal quebra a mágica, mas do ponto de vista simbólico resta uma proximidade; essa descontinuidade é também interativa, na medida em que, a posteriori, meus alunos não conseguem intervir na aula – porém, nem que fosse possível para o momento, não iria fazê-los perder 2 horas de Paris pra assistir a aula de Estatística I, esteja certo disso 🙂

Mas volto: e nós com isso? Não sei. Se você souber de experiências vanguardistas e arrojadas em Educação, poste um comentário, por favor. Vou gostar muito de ouvir.

(Update em 31/05): relendo esse post lembrei-me do Mutoid Waste Co., um grupo de ingleses amalucados que fabricava monstruosidades mecânicas com sucata e fazia performances de teatro e música pela Europa, nas décadas de 80 e 90. A despeito da pegada Mad Max do pessoal, eram performances muito interessantes – isso é o mínimo que se pode dizer de, por exemplo, um enorme cão com motor diesel rugindo e “ameaçando” a platéia, controlado por seu construtor. Quando vejo esses arrojos, sinto cada vez mais que somos empurrados a fazer educação com muito pouco risco e muito pouca vanguarda. E de forma progressivamente mais asséptica, sem sabor.
Creio que a EaD independente, defendida pelos Tractenberg, pela Renata Kurtz e outros pode ser uma boa saída, não-institucional e de risco, para essa excessiva assepsia educacional.

Para quem quiser ver algo do MWC (bastante estranho, esteja avisad@), viva o YouTube:
Mutoid Waste Co. em 2005 (achei que havia acabado…); um documentário mais organizado, In company with Mutoid Waste, parte 1 e parte 2, e muitos outros.

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Qualidade em Educação: barato é ruim? (1)

[por Marcos Benassi]
Um dos grandes problemas da educação de alta qualidade é seu custo.  Até o presente momento, educar com qualidade – por tudo o que vi e fiz – sempre custa caro. Sem preciosismos: “caro” é aquilo que, em um certo contexto, representa valor monetário substancial. No Brasil, “caro” pode ser gastar cem mil reais na sua formação superior; num país do Norte, esse “caro” pode querer dizer cento e cinquenta, duzentos mil dólares. “Caro” pode ser pagar R$500,00 em um curso online de 30 horas,  mesmo que envolvendo uma docência cuidadosa e bons materiais de leitura.
Há exceções: são, como dito, exceções – muitas vezes voluntariosas, que não se repetem/multiplicam por processos, simplesmente porque dependem do fato de algumas pessoas, excepcionalmente talentosas e motivadas, estarem envolvidas e serem cruciais para aquele projeto específico. Recebo réplicas de bom grado.
(Nota: comecei este post e não o publiquei. Nesse meio-tempo,  em uma reunião do grupo de pesquisas do qual participo, o NEAPSI, da FE-UNICAMP, houve uma discussão sobre o filme O preço do desafio (Stand and deliver), no qual há justamente um professor dedicado e talentoso, que tira água de pedra com seus alunos. Casualmente entrou no meio dessa reflexão, e põe pilha na opinião expressa acima)

Como fazer para conseguir resultados como o Box House, de Yuri Vital? Faz dois anos que isso está desenvolvido, e somente agora conheci o projeto. Não é educação, é Arquitetura: os contextos são distintos, os processos de replicação também o são. Mas entendo que é isso que temos que perseguir. Será por conta da escala do projeto que conseguiremos baixar custos educacionais? Será pela padronização? Esses são os métodos tradicionais: aumenta-se a escala de produção, faz-se menos modelos distintos, otimiza-se toda uma cadeia produtiva com o fim de fazer melhor e mais barato. Podemos fazer isso com os materiais didáticos, os ambientes, mas o desafio parece estar no professor: EaD de alta qualidade, para objetivos mais amplos de aprendizagem como os do ensino médio ou acima, demanda trabalho docente. O desafio é reduzir esses custos sem aviltar a remuneração deste docente. De forma superficial, comentei esse assunto com um usuário do Ikwa, em um post do Pra onde vou?, coluna que fez parte de meu projeto nesse site:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

(postado com o vodpod)

E aí? Professores mais baratos? O que significa isso? Serão piores? Ou somente mais mal remunerados? Ou a equação se equilibra, por exemplo, com estabelecer processos para docência online e uma boa gestão de professores em começo de carreira, de menor custo, por professores doutores e experientes em EaD? Isso dá pouca abertura para a criação docente, mas pode assegurar uma determinada qualidade  de ensino. Já é feito, bem ou mal, nas grandes redes privadas de ensino presencial e em algumas operações de EaD.

Volto nesse tema em alguns dias.

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Maravilhamentos…

[por Marcos Benassi]
Não sou de muitos deslumbres tecnológicos, mas…
Esses dias estava eu em Londrina, Paraná – uma cidade de alguns contrastes vívidos, muito interessante – quando descobri que o Fring, o cliente Skype que uso em meu telefone, tinha um update disponível. Mais: o update prometia VÍDEO no dispositivo móvel. Duvidei, instalei e me emocionei – rima pobre, rico espanto.

Chamei o Roger Queiroz, amigo velhíssimo, que veio passar uns tempos aqui no Brasil pra poder quebrar sua perna com conforto e mordomias, e foi a coisa mais impressionante dos últimos tempos. Saí de noite, pela bruma Londrinense, conversando, vendo meu amigo e sendo visto, de um aparelhinho minúsculo em minhas mãos. Em Londrina a minha conexão 3G do telefone funciona muito bem, e me senti quase como o Capitão Kirk falando “Sr. Sulo, dois para subir”.

Do fundo de minha cabeça, ouvia a Tetê Espíndola cantando a maravilhosa e estranha Londrina, de Arrigo Barnabé, cuja letra nada tem que ver com tecnologia, mas estava no clima de Mistério, de Revelação, que aquela experiência estava me proporcionando. E, vindo desse mesmo abismo mental, ouvia o Joseph Campbell falando sobre o computador, “uma legião de anjos ali dentro, um milagre”.
O que sei é o seguinte: que uma porcaria de um cliente Skype, num dispositivo móvel vulgar, me proporcionou uma noite de intenso estranhamento, como há tempos não experimentava (e, antes que algum engraçadinho o diga, SEM substâncias psicoativas 😉 ).

Um feito tecnológico, para o qual não me ocorre grande utilidade prática para Educação, a não ser uma eventual orientação de trabalho pessoa-a-pessoa, quando uma conversa mais rica seja imprescindível. Certamente um videocast de campo pode se beneficiar com isso, quando a infra de software e rede o permitir: um professor de arquitetura dando uma aula remota à sua turma, andando pelas ruas? Aula de Artes feita a partir do Masp, com o professor compartilhando seu olhar sobre  algumas coleções? Aula de literatura direto de Statford-upon-Avon ou do sertão de Guimarães Rosa? Uma aula sobre ópera brasileira, direto da Casa dos Carneiros? (Vitória da Conquista deve ter 3G que preste, quem sabe chega às imediações?).
É, na verdade dá pra fazer muita coisa com isso, se formos criativos, estivermos no contexto adequado e tivermos a sorte da rede sem fio funcionar, muita sorte.

Mas o que valeu mesmo foi o surreal da experiência toda. Curto e grosso: foi muito legal… 😀

Pr’aquel@s que quiserem arriscar:
Fring, nosso herói do dia: maravilhoso, rodando em um dispositivo Nokia E71, Symbian S60, uma redinha 3G decente, conexão de 1 megabit.
Arrigo Barnabé, cabra genial, Londrinense, músico alquímico e estranho, muito estranho; cada vez mais delicado em sua música, ele próprio duma delicadeza surpreendente quando o vemos falando. Cérebro e sensibilidade de mãos dadas, ambas sobre o piano.
Tetê Espíndola, num vídeo bem incomum no YouTube, cantando Londrina (o único dessa música que encontrei na voz da Tetê que, na minha história pessoal, é a versão prototípica ). Essa mulher é um espanto.

Joseph Campbell – minha citação estava errada, o que não faz da frase menos surpreendente ou bela:
em português: dê um search em “anjos” e a encontrará (mas, se possível, leia na íntegra. O velhote sabia tudo: aquilo é que é professor, dá até vergonha da minha pobre sapiência mirrada e anêmica performance docente);
em inglês, procure por “angels”, está logo nos primeiros parágrafos. A tradução em português está boa, a citação de cabeça é que foi torta.

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Dois comentários póstumos:

  • A rede 3G NÃO era da Sercomtel, por isso a relativa surpresa com seu bom funcionamento: quando a Sercomtel funciona maravilhosamente, isso não surpreende ninguém, é o padrão. Morro de inveja…
  • Roger Queiroz, que quase vintecinco anos atrás, editou comigo, via Telesp mesmo, meu primeiro autoexec.bat. Ele, no Laboratório de Plasmas, na UNICAMP, onde fazia seu mestrado; eu, na casa da mamãe, em um magnífico Intel 286, 1 mega de RAM, com um monitor High-Res Hercules, monocromático (não fazia escala de cinzas, era pixel on, pixel off mesmo).
    O primeiro autoexec a gente nunca esquece. 😀
    Depois disso, eu virei Psicólogo e terminei consultor em EaD; ele, executivo da indústria de alumínio e terminou consultor de Marketing na Internet (ainda haverá buxixo sobre seu nome). Adoro quando ensino alguma coisa pra ele, me sinto pagando uma dívida antiga 😉
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Qualidade em EaD: Certificações

[por Marcos Benassi]
Continuando a sequência de posts relacionados às conversas acerca da qualidade em cursos a distância: os certificados.

Resgato mais um vídeo feito para o Ikwa, relacionado aos certificados que atestam competências e/ou aprendizagem por parte dos alunos. É sem dúvida mais rasteiro do que a discussão iniciada pelo Régis no post anterior deste blog, mas mantém-se no mesmo tema.
Nesse caso específico (vídeo e texto abaixo), fiquei até surpreso com o grau de inconsequência da instituição certificadora. Isso considerando que sou macaco velho, e faz uma dúzia de anos que faço EaD: o compromisso da instituição é com seu bolso e conta bancária, somente.

Lembrou-me o saudoso Bussunda e suas Organizações Tabajara

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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O Fulano me fez uma questão sobre “cursos de baciada”: X cursos cujo acesso é franqueado a preço fixo, durante um certo tempo. Embora eu não acredite que ao preço pedido seja possível oferecer cursos de qualidade, não vamos em princípio desqualificar o modelo de negócios: como em toda oferta “de baciada”, sempre é possível caçar pepitas de ouro na bacia, e encontrar alguns bons cursos que façam valer a pena a compra do acesso.

Porém, visitando o site que do qual o Fulano falou, um detalhe me chamou a atenção: o número de horas do certificado oferecido é proporcional ao tamanho do trabalho final produzido, que é proporcional ao valor do certificado.
Bem, isso daí é no mínimo questionável, pra dizer o menos. Se eu faço um trabalho de UMA PÁGINA é equivalente a um curso de 20 horas, e a correção do trabalho (e emissão do certificado correspondente) custa 20 reais.
Se faço um trabalho de DEZ páginas, é equivalente a um curso de 120 horas e sua correção/certificado custa 80 reais. E assim por diante.

Isso significa ter o tamanho do trabalho final como indicador de “tamanho” da aprendizagem ou de extensão do curso. Isso é uma bobagem. O curso abrange o que abranger, independentemente da aprendizagem que dele decorra.
Além disso, esse raciocínio diz, implicitamente, que o curso não tem objetivos a serem atingidos, não tem um conjunto final de aquisições que devem ser avaliadas para a obtenção da certificação.

Se o aluno escrever sobre um certo tema uma ou dez páginas, ele ganhará mais ou menos “horas de curso”. Mas ele atingiu os objetivos de aprendizagem? Os cursos nem devem ter objetivos de aprendizagem… Certificar o que, portanto?

Em relação ao valor de mercado dessas certificações:
Eu, se vejo um certificado desses no currículo de alguém, não contrato a pessoa. Não é possível que alguém apresente esse tipo de certificação ao mercado, crendo que ela tenha algum valor. Isso DESqualifica o profissional, ao invés de qualificá-lo. Desqualifica sua formação e, principalmente, seu bom-senso.

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Qualidade em EaD – como avaliar?

[por Marcos Benassi]
Temos, o Régis Tractenberg e eu, conversado muito sobre a avaliação de qualidade em cursos a distância. Há uma infinidade de porcarias no mercado, mais bonitas ou mais feias, com selos os mais diversos: como uma pessoa pode fazer uma escolha frente a essa multiplicidade de opções?

Esse post replica um dos primeiros vídeos que fiz para o projeto no Ikwa, e que é disponibilizado pelos servidores do UOL Mais. Se o tema é do seu interesse, fique de olho: assine nosso RSS, acompanhe a conversa, discuta conosco. Seja muito bem-vind@.

Como saber se EAD vale a pena?

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Aqui tem duas coisas, Fulano. Se ele é bom, de boa qualidade, e se ele é bom PARA VOCÊ, considerando as formas de aprender que te são mais caras.

As pessoas aprendem de formas diferentes, são aprendizes mais eficazes em certos contextos. Digamos que você gosta de leitura, de aprender através da leitura: um curso totalmente em vídeo pode não ser o mais adequado para você. OU você precisa interagir com pessoas ao aprender, precisa discutir os temas, fazer exercícios colaborativos, compartilhar: um curso estruturado para auto-estudo pode não ser pra você. Entende onde quero chegar?

A qualidade de um curso é uma coisa multifatorial. Um curso a distância é um curso. Então, você pode avalia-lo pelo

  • seu planejamento (tá bem feito, bem descrito? É coerente? É factível?),
  • pela qualidade dos materiais que oferece (são bem cuidados? Tem erros? São ricos e diversificados?),
  • pelas opiniões de quem já fez, e pelos resultados que obtiveram, no caso de um concurso ou uma prova
  • pela qualidade dos professores (quem são? Como são formados para a docência online? Qual sua formação acadêmica?),
  • pela reputação do fornecedor, que te dá uma pista sobre a qualidade geral dos cursos.
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Leitura 2.0

A gente vê muita coisa sobre os leitores de e-books, vide o bochicho com o lançamento do Kindle e seus primos – o iPad como o último e mais glamuroso deles (muito embora seja mais que um leitor, naturalmente). Pouco se fala sobre o que é possível de se fazer com um  e-book para que explore as peculiaridades do meio digital e se transforme em uma obra diferente de seu irmão impresso – o que vi até o momento são textos digitalizados, praticamente lineares, com ilustrações estáticas.

Esses dias estava lendo, em papel,  Isak Dinesen (Karen Blixen), A Fazenda Africana. Histórias de uma européia – do andar de cima, como diria o Elio Gaspari, da Folha de São Paulo – que se encontra como colonizadora no Quênia no início do século XX. É talvez a terceira ou quarta vez que leio o livro nuns 15, 20 anos. Só que dessa, a cada referência dela a um ponto geográfico (o Monte Ngong, a reserva Kikuio, Nairóbi) ou de uma pessoa interessante, eu ia fuçar no Google Maps: onde é isso? qual a proximidade com a fazenda? Eles saíram num safari daqui até ali: qual a rota? Por onde passaram? E outras: quem foi fulano? E sicrano? Que outras visões existem disso ou dele? Isso é uma leitura 2.0, e não é nada de mais, não depende de nenhum e-book reader.

A leitura em papel, adicionada a essas pitadas eletrônicas via um telefone E71 rodando Symbian, com Google Maps móvel, um navegador Ópera  Mobile (delícia, rapidinho), foi interessantíssima. Nada que não se pudesse fazer com um micro convencional; porém, na cama, lendo o livro com o apoio do dispositivo móvel, essa foi uma experiência muito bacana. Integrou duas gerações tecnológicas e duas diferentes maneiras de acessar informação, em contextos distintos, complementares uma à outra.

Mensagem fundamental desse post: não caia na balela de que é necessário um leitor eletrônico sofisticado, coisa e tal, para dar um upgrade na sua relação com a literatura. Se os livros não mudarem, NADA MUDA pela simples inserção do texto em meio eletrônico.
Ao invés disso, mude você: pegue seu livrinho e seu iPhone, BlackBerry, E71 ou o que o valha; sente na sua poltrona, deite na cama, como preferir; e explore a combinação poderosa da velha com a nova tecnologia. Vai ser divertido, é menos um trambolho na sua vida e, até os dias de hoje, pelo menos (2010) funciona MUITO melhor do que os e-book readers.
Bom proveito!

Referências:
Para comprar Karen Blixen (não ganho nada com isso, ok? ;-)  )
Livraria Cultura – alto nível, coisas em português e em outras línguas.
Estante Virtual – meta-busca em sebos, sensacional, sempre funcionou bem para mim. Sempre verifique as qualificações do vendedor.

Sobre o Nokia E71, há um post aqui no EP em que falo dele. Aliás, mais de um.

Um post muito simpático da Cátia Kitahara, com texto e fotos, falando da Dona Blixen.

E o Google, sempre ele. As imagens da Baronesa são preciosas.

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